PROTAGONISMO INVISÍVEL: A HISTÓRIA DAS MULHERES NO CAFÉ BRASILEIRO
Na última matéria do mês de março, é claro que vamos abordar um tema que aqui na FG é diário: o protagonismo feminino. A trajetória da mulher no café brasileiro é marcada por um paradoxo: centrais na gestão e no trabalho braçal das fazendas desde o século XIX, permaneceram invisíveis nos registros oficiais por gerações.
Antigamente, muitas mulheres que atuavam ativamente na produção, colheita e secagem do grão se declaravam nos censos apenas como “do lar”. A falta de reconhecimento era tão profunda que, até meados de 2012 e 2014, relatórios de órgãos internacionais ainda afirmavam erroneamente que não havia mulheres interessadas no cultivo de café no Brasil.
Essa invisibilidade contrasta com a importância histórica de figuras como a Imperatriz Amélia, segunda esposa de D. Pedro I. Ela é creditada por transformar o hábito de tomar café em um ritual social e de acolhimento no Brasil, elevando a bebida de simples estimulante a elemento central da cultura doméstica e das recepções da elite.
No centro de São Paulo, outro marco veio de Maria Punga, uma mulher negra que se tornou proprietária de um dos primeiros estabelecimentos a servir café na cidade, unindo a bebida a quitutes tradicionais como bolos de fubá e tapioca, em um empreendimento que misturava sabor e resistência.
Historicamente, as mulheres sempre foram responsáveis pelas etapas que exigem maior detalhamento e sensibilidade, como a separação dos grãos e o controle da secagem nos terreiros. Hoje, essa tradição de “capricho” se reflete na liderança feminina no setor de cafés especiais, onde a qualidade técnica é prioridade sobre o volume, revertendo décadas de apagamento histórico.
Atualmente, as mulheres lideram cerca de 13,2% dos estabelecimentos cafeeiros no Brasil e têm criado marcas exclusivas para garantir que seu protagonismo na comercialização seja tão visível quanto seu trabalho no campo, escrevendo um novo capítulo nessa história centenária.
Fontes: Folha de São Paulo, Claudia Thomé Witte e Antônio Egydio Martins.
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